Rodrigo

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Meu nome é Rodrigo Souza, só que atualmente sou mais conhecido como Rodrigo Maré, uma reflexão da minha relação com a Maré em si. Eu moro aqui há 26 anos, desde que eu nasci, e parte da minha família também mora aqui há mais de 30 anos. Algumas vezes as pessoas falam: “tal coisa aconteceu na Maré”, só que a Maré é muito grande, ela tem quase 20 favelas, então a Maré é um mundo de fato, é um bairro, e como todo bairro tem suas particularidades, tem suas relações, tem seu contexto histórico é assim o Parque Maré, a Nova Holanda, cada comunidade é diferente.

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Atualmente tenho trabalhado com música e arte em geral. Comecei estudando percussão com Reinaldo Gaia, aqui na Casa de Cultura da Maré, em um projeto que trabalhava com a construção de instrumentos com materiais reaproveitáveis, e a partir desse projeto a gente montou uma banda que ganhou o nome ”Reciclasom”. Depois que esse projeto acabou eu estudei um tempo na UERJ com o mestre Spirito Santo, num projeto chamado Musikfabrik, que me ensinou muitas coisas sobre o som e a percepção sonora, a gente montou uma banda que também levava o nome do projeto e foi um projeto que me ajudou a amadurecer muito, me entender melhor como artista e como músico, era uma banda formada por músicos negros com origens na periferia, então a gente trabalhava com essa resistência, de mostrar nossas caras e ancestralidade, resistência e nossa musicalidade. Paralelo a isso, eu passei a estudar um tempo na ProArte, que é uma escola de música também no Rio. Lá eu aprendi a teoria e didática que me ajudou a dar aulas, porque não e só tocar, por trás da música tem uma pratica, tem uma textura, tem um timbre, tem compasso, tem parâmetro, então lá eu pude aprender um pouco disso.

Minha professora e amiga Taíssa Matos, me convidou pra participar do grupo Zanzar, que eu faço parte até hoje, que trabalha com a pesquisa e o ensino de cultura popular. Na cultura popular tem muitos ritmos trazidos da áfrica que foram difundidos no Brasil, do batuque ao samba, e foi lá ensinando e aprendendo que eu comecei a me ver como essa figura que tem que valorizar esse lugar. Depois da Nigéria o Brasil é o país que mais tem negros no mundo, então o que isso significa pra esse pais? As vezes a gente vê o Brasil perdido dentro da sua mística, dentro da sua cultura. A musicalidade brasileira é negra, e ela precisa continuar sendo valorizada, restaurada e aprofundada pra continuar existindo, porque é importante pro povo saber de onde ele veio pra saber pra onde ele vai.

E além dessas profissões musicais que eu falei são sete anos que eu faço parte da Cia Marginal, que é uma companhia de teatro formada e fundada por moradores aqui do Complexo da Maré. A gente tem quatro espetáculos montados e o mais recente, “Eles não usam tênis naique”, foi muito interessante porque foi uma temporada muito lotada. O espetáculo falava de um pai que é traficante na década de 70 e volta pra encontrar a sua filha atualmente dentro do mesmo contexto em que ele vivia, só que as relações agora são diferentes, o tráfico, as relações pessoais, as relações familiares. Eu fiz a trilha sonora desse espetáculo, pra todos nossos espetáculos eu também toco música, então foi um espetáculo super importante com uma repercussão super grande. Assim como a música, o teatro também é muito marginalizado. Você pode falar de teatro, mas os teatros estão onde? Eles estão na zona sul, eles estão no centro, não dá pra um pai de família, uma mãe de família que tem quatro filhos pegar um ônibus e pagar passagem de 3.80 de cada um, pra assistir uma peça de teatro lá na zona sul que vai cobrar 50 reais no ingresso. Com um salário mínimo que é 800 reais, como é que o cara vai sobreviver dentro desse contexto? Então o prefeitura do Rio, os governantes, eles têm que pensar nisso também, como é que podem desenvolver esse tipo de ação e fomentar essa cultura pras pessoas que estão dentro desse contexto. Eles fomentam projetos que são maravilhosos, mas são pro público xis: uma população branca, playboy, burgessa, que está do outro lado da cidade, do lado de lá, que não sabe o quanto que a gente se fode pra poder consumir esse tipo de cultura também. Essa é a vida que a gente tem como um povo marginalizado, a gente tem que pregar, todo dia matar um leão pra continuar sobrevivendo de alguma maneira.

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Antes dos 18, 19 anos eu nunca tinha tocado nenhum instrumento, eu estava fazendo outras coisas, estava trabalhando com outras coisas, experimentando, se descobrindo. Comecei a tocar, gostei e fui praticando, praticando até chegar onde estou hoje. Esse processo que a gente imagina, de você começar a tocar quando você é muito jovem, ele é pensando pra classe media, pra quem tem condições de botar o seu filho numa escola de teatro com nove anos de idade. Quando um garoto de nove anos, diz, “eu quero ser ator, eu quero ser músico”, e porque ele tem contato com isso desde essa idade. É por isso que eu falo que a gente tem que continuar brigando pra que esses veículos de cultura estejam presentes dentro da favela, pra que um moleque de 9 anos todo dia ele esteja ali fazendo teatro, todo dia ele esteja indo num espetáculo consumindo arte de qualidade.

A gente precisa trazer outras perspectivas, trazer esperança e a gente tem que ser visto como cidadão também, não somos uma massa de manobra. Nas políticas publicas de segurança o governo gasta milhões de reais pro caveirão, pro helicóptero, pra arma; pensando na educação ele está construindo as “Escolas do Amanhã”, mas as escolas que existem são todas sucateadas, os professores são todos sucateados, o salário é péssimo, os alunos não tem uma perspectiva de melhora.  Aqui na Maré tem a Lona Cultural, que está jogada as traças, os trabalhadores lá ficam meses sem receber salário. Então a gente tem que pensar nesses projetos, nesses lugares de produção artística como lugares importantes pra gente, pro povo da favela, pro povo da periferia, pro povo da zona norte. A gente merece ter veículos e zonas de cultura dentro do nosso espaço.

E no mais estamos aí. Diariamente eu faço música na minha casa e como tudo dentro da favela é uma coisa interpessoal, você faz um som, você faz uma batucada dentro de casa e aparecem pessoas na janela, daí eu abro a porta, as crianças entram e a gente dá uma oficina, a gente fala um pouco de música, a gente faz um barulho, a gente conversa. É importante também pra continuar trazendo essa perspectiva, pra que as pessoas vejam que aqui dentro da favela não só tem arma, não só tem droga, não só tem monstro, não só tem polícia, também tem pessoas que trabalham, também tem pessoas que trabalham com arte, também tem pessoas que lutam diariamente. Na verdade, essas são a maioria das pessoas. A mídia não quer dizer que aqui a maioria é trabalhador, que a maioria são as pessoas que movem essa cidade porque isso também não vende jornal então isso não importa pra eles. Quanto mais sangue, quanto mais morte, mais jornais eles vão vender. É por isso que eu gosto de abrir a minha porta pras crianças entrarem, produzirem música, produzirem som, conversar com eles sobre o que está por trás disso também, então dá pra você mostrar um pouco do que é possível aqui, que mesmo você sendo pobre, mesmo você morando em favela, você pode ser artista, você pode consumir arte, isso não é um privilegio da classe media nem da burguesia, isso é um direito de todo cidadão.

Minha esperança do futuro é que o povo preto, pobre, favelado do Brasil, se veja na sua potencia, que a gente se empodere dessa potencia e que a gente pare de continuar aceitando o que nós impõem todos os dias, como o racismo, a morte do nosso povo por essas políticas de segurança, essas ideias que você não pode ser universitário, você tem que continuar sendo empregado subalterno. Somos um povo muito rico e falta a gente se vê dessa maneira; eu acho que quando a gente se vê dessa maneira, tudo vai mudar, está mudando já, a gente tem se colocado muito, mas pode ser melhor. E eu espero que a gente continue falando isso pra nossas crianças, pra elas se verem como protagonistas dentro da sua própria historia, como pessoas que podem fazer algo, pessoas que podem alcançar seus objetivos, pessoas que podem liderar.

 

Fotos: Antonello Veneri/Henrique Gomes (em cima); Marcus Galina (em baixo)

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