Glaucio

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Eu nasci na comunidade da Maré, no hospital geral de Bonsucesso, e morei na Nova Holanda até 8 anos de idade. A maior casa da rua era a nossa, meu pai trabalhava na Petrobras e tinha uma estabilidade boa, vivíamos viajando, chegamos a morar no Rio Grande do Sul quando meu pai estava construindo a casa e todo final de semana vínhamos para o Rio. Quando eu tinha 8 anos meu pai abandonou a gente, no dia que se separou da minha mãe foi como se tivesse separado dos filhos também. Não passamos fome por causa das nossas tias, irmãs da minha mãe. Todo mês minha tia chegava no carro do marido com as compras, ela também liberava para comermos na padaria do marido. Todo dia de manhã a gente ia pegar o pão, o leite, a manteiga, à tarde íamos pegar o pão e a mortadela. Da parte paterna, tanto meus avós, quanto meu pai e minhas tias, moravam próximo mas nunca ligaram para a gente. No ano passado meu pai faleceu e não senti tanta dor.

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Como minha mãe não tinha condições para criar três filhos sozinha, mandou meu irmão e eu para Paraíba para morar com meus avós. O que a gente fazia lá era cuidar do sítio do meu avô. Eu levantava às 5h para ir cortar capim para o gado, à tarde eu ia pegar a lavagem dos porcos. Estudava, mas quando tinha aquela reunião dos pais na escola não ia ninguém, minha avó vivia doente, meu avô estava trabalhando, então quando ia era um vizinho, alguém que minha avó pedia para ir porque ela mesma não podia.

Depois de 10 anos meu avô morreu de infarto fulminante e a gente teve que voltar para o Rio, fui morar na Nova Holanda de favor na casa de alguns amigos. Nunca gostei de futebol, nem sabia o que era o futebol, mas um belo dia meus amigos me chamaram para jogar uma pelada e como não sabia jogar bola fiquei na barreira do campo comandando o time. Desse dia em diante despertou um interesse pelo futebol. Meus amigos sugeriram que eu criasse um time, um projeto para as crianças, e fiz na Nova Holanda. Na primeira semana tinha 12 atletas, na segunda tinha 50, na terceira tinha 100 e no mês seguinte tinha 200. Daí eu tive que dar uma pausa com o projeto por falta de apoio, como morava de favor na casa de um amigo, tinha que trabalhar para poder ajudar com os gastos. Fui trabalhar na padaria do meu tio, quando ele veio para cá na Vila do Pinheiro eu vim junto com ele, então formei meu projeto atual, o Rogi Mirim, aqui no Pinheiro.

No começo a gente treinava com bolas emprestadas, esse campo aqui era cheio de buracos e pedras, era torto, não tinha grades, as pessoas passavam no meio do campo enquanto treinávamos, para ir para a rua atrás. Mas mesmo assim, naquela época eu já pensava grande. Nunca joguei bola mas estudei, li, comprei livros para aprender táticas para dar treinamentos, baixei vídeos no YouTube. A gente começou a competir em 2007, e de lá para cá, fomos cinco vezes campeões da Copa Roberto Dinamite, uma competição organizada pela liga do Rio de Janeiro; campeões da Copa Faferj, a Federação de Favelas do Estado do Rio de Janeiro; e vice-campeão do Campeonato Carioca, o campeonato da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, o maior órgão do estado, e no ano passado chegamos na semifinal. Hoje temos 250 crianças escritas no projeto e ninguém paga um real, não recebo nada, a gente não tem patrocínio, é totalmente de graça.

Hoje em dia faço mais bico, tenho profissão (sou padeiro, pedreiro, trabalhei de carteira assinada como estoquista) mas não tenho emprego fixo porque não encontrei um emprego que dê para continuar com esse projeto. Se fosse trabalhar, uma hora dessas estaria preso no trânsito das 17h para chegar em casa – como é que vou dar treino para as crianças? Nossos treinos começam às 15h – qual emprego vai me largar nessa hora para voltar para cá? É opção minha, moro de aluguel, tenho muitas dificuldades, isso não escondo de ninguém, mas tenho meu trabalho aqui, no Campo da Toca, na Vila do Pinheiro, na comunidade da Maré.

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Todo mundo fala da favela, diz que a favela é violenta mas não é, as pessoas pintam horror de fogo na Maré porque não moram aqui dentro. O tráfico faz o negócio dele com as drogas e a gente vive nossa vida. Então, dentro da Maré tem sim sabe o quê? Muitos moradores, trabalhadores, gente boa, gente de fibra, porque para morar em uma comunidade tem que ter fibra, tem que ser guerreiro. Tinha muito tiroteio quando o exército estava aqui dentro no ano da Copa do Mundo, mas depois que foi embora nunca mais teve. A polícia faz as operações dela, mas nem toda operação dá tiro, então as pessoas pintam horror de fogo na Maré porque não conhecem a mesma.

No dia da ocupação da Maré, falei para as crianças que ia ter treino normal, então as 14h o exército estava entrando na comunidade e eu estava dando treino. Logo depois, passou um carro do SBT em frente ao campo, parou e me chamou:

“Faz favor moço!”

Fui lá. Ele falou: “Olha só, a gente está procurando as casas de palafita, sabe me dizer por aqui onde tem?”

Falei: “Casas de palafita aqui no Pinheiro? Impossível.”

Ele falou: “Não, você sabe, aquelas casas de palafita, com esgoto a céu aberto?”

Falei: “Não tem isso aqui dentro. Mas tá vendo aquelas crianças ali? É um projeto que rola há 18 anos sem apoio de ninguém e você podia fazer uma matéria do projeto, entrevistar alguma delas, que no dia da ocupação tem 60 crianças que vão treinar.”

Ele falou: “Pô cara, infelizmente não dá para fazer uma matéria porque a gente tá procurando as casas de palafita com esgoto aberto.”

Eu fiquei indignado, porque hoje o jornalismo no Brasil (não é só no Rio, é no Brasil todo) só quer mostrar morte, só quer mostrar miséria, as coisas boas que tem dentro da favela ninguém quer mostrar. A polícia vem, faz uma operação e vem um monte de jornalistas atrás falando: “Fulano de tal foi preso! Que horror, um morador morreu na porta!” Mas ninguém quer mostrar 250 crianças treinando todo dia no meu campo.

Eles esquecem que a gente existe? Que a gente está aqui dentro, que somos pessoas normais, que vivemos, que trabalhamos, que se uma empresa funciona lá fora é porque pessoas iguais a gente da favela trabalham nelas? A gente é bom suficiente para trabalhar em empresas, para trabalhar nas casas dos milionários, mas a gente não é bom suficiente para eles virem aqui dentro para fazer uma matéria, para ver se conseguimos um apoio para esse projeto?  

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Aqui dentro falamos que não tem violência mas o lado ruim e o lado bom existe em todo lugar. Então, com esse projeto, em vez de ter um garoto largado na rua, ele está com a gente aqui. Tenho orgulho de dizer que já tirei muitos adolescentes do tráfico, já perdi também muitos adolescentes para o tráfico, porque minha luta contra eles é injusta: não tenho nada para oferecer, o tráfico tem coisas para oferecer. Mas vou lutar, afastando quem posso, ajudando quem posso, lutando por quem posso, brigando por quem posso. A importância desse projeto na vida dessas crianças é tudo, é tudo, é o que tira elas das ruas, o que tira elas da sua ousadia, o que faz com que elas se tornem pessoas de bem. Antes e depois de cada treino a gente senta e explico a situação da vida, que no baile não tem futuro, que tem que estudar para ser alguém, para dar uma vida melhor para sua família. Desde o começo do projeto falei para eles: “vamos por parte, cado passo de uma vez”.

Ninguém da minha família mora mais aqui na Maré. Minha irmã mora em Recife, minha família mora em Itaguaí, a única pessoa da minha família aqui na Maré sou eu, tem uns 10, 15 anos que todo mundo saiu. Minha mãe me perturba o tempo todo: “tem que largar esse projeto, não tem futuro, não dá dinheiro”. Mas ela não sabe que esse aqui é o sonho da minha vida. Não vou largar isso aqui por nada, só no dia que morrer, e mesmo assim vou deixar para alguém. Já treinamos jogadores que hoje são treinadores conosco, tem outros que estão fazendo faculdade, tem outros que já se formaram. Tem outras historias que só não vou falar porque estaria aqui até amanhã de manhã contando histórias. Tem a história do garotinho que fez um gol e correu e me abraçou no meio do campo, tem o treino das 17h, o treino do pré-mirim, quando eles me veem chegando e todo mundo corre gritando “Gláucio! Gláucio!” São essas coisas que não me faz parar, são essas coisas que me dão força para continuar lutando, sabendo que mesmo sem dinheiro, mesmo sem apoio, a gente está fazendo a diferença para eles.

Ponto. Vamos terminar antes que eu chore. Esse projeto é tudo para mim. As crianças estão me chamando, já passam das 17h [rindo]. Posso dar treino agora?

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