Maria

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Éramos filhos da roça. Eu tinha 10 irmãos, fora os que morreram, porque dizem que eram 18, pois no norte não tem tantos recursos. Eu era a terceira das filhas mais novas. Minha mãe trabalhava ajudando a minha avó na roça. Meu pai foi para o interior com a minha mãe, só que ele nunca ligou muito para a gente, ele ficava mais na rua, com outras mulheres, bebendo. Ele gostava de bater na nossa mãe, ela levava um bebê e tinha que sair correndo porque ele queria bater nela de facão. Era minha mãe que sustentava a gente. Quando eu tinha sete anos ela morreu de derrame. Eu não queria voltar a minha infância. Na verdade, queria voltar sim, queria voltar para ver a minha mãe de novo.

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Quando minha mãe morreu cada um foi para um lado. Eu fui para São Luís, a cidade capital, para morar na casa da minha irmã, onde eu ficava mais cuidando da casa e dos filhos dela. Só que eles começaram a me maltratar muito e eu voltei para o interior quando tinha 14 anos. Minha irmã estava indo para o Rio e a outra mais nova não quis ir, pois ela já estava namorando e acabou que eu vim no lugar dela. Eu fiquei no mesmo trabalho que ela, trabalhando em uma casa de família em Copacabana. Quando eu vim pra cá eu não tinha estudo, mas eu achava muito bonito ver as pessoas lendo, então eu sozinha fui me matricular na escola e aprendi a ler. Estudei até a quarta série, quando engravidei e tive minha primeira filha. Depois não deu mais para estudar. Na casa onde eu trabalhava eles acharam melhor que eu fosse morar com o pai dela, então fui para Jacarepaguá para morar com ele. Depois eu vim pra cá na Nova Holanda.

Praticamente criei minha filha mais velha sozinha. Depois de três anos eu separei do meu ex-marido por causa de traição. Ele veio e disse: “me perdoa, me desculpa, eu bebi, fui fraco”, e eu não aceitei. Foi a melhor coisa, depois ele foi embora e nunca ligou para ela. Quando eu separei ele não quis mais me ajudar e eu falei: “então eu vou para a cidade para aprender a fazer uma faxina”. Comecei a fazer faxina, fiquei nesse trabalho uns 6, 7 anos e depois eu trabalhei num depósito de bebida fazendo comida para os funcionários. Depois eu fui trabalhar na casa de uma família do depósito no Recreio, foi um ano que eu trabalhei na casa deles de carteira assinada. O salário era bom, mas quando eu saia era muito tarde, eu ficava mais lá do que aqui e minhas filhas estavam muito abandonadas, então para poder ficar mais perto delas eu tive que sair desse emprego.

Depois de 6 meses vim pra cá para trabalhar no Observatório de Favelas, fazendo lanche e trabalhando de serviços gerais. O Observatório é uma ONG na Nova Holanda onde tem cursos e estágios de jornalismo e fotografia para jovens. É tudo de graça e como a Petrobras é uma financeira, tem até lanche e passagem para os estudantes. Os jovens daqui da Maré não se interessam muito pelos cursos, alguns, mas muito poucos estudantes, vêm daqui, quem vem mais são pessoas de fora, de Niterói ou da zona sul. Tem até estrangeiros, da França, da Alemanha, e eles gostam mais da favela do que de Copacabana, eles se identificam mais. É uma família aqui: todo mundo se trata bem, com carinho, e continua sendo amigo depois de sair.

Ganho o salário mínimo, novecentos e pouco, e é ainda mais difícil com duas crianças. Os alugueis aqui estão muito caros, parece até a zona sul. Eu morava numa casa com dois quartos, uma sala, uma cozinha e um banheiro, mas agora eu moro numa quitinete e pago para minha irmã, pois a quitinete é dela e do marido dela. Ela morava aqui na Maré mas saiu e agora mora no outro lado em Bonsucesso. A minha sorte é ter o Bolsa Família, pois minhas crianças estudam, e a pensão do pai delas, que ajudam um pouco.

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Eu sou evangélica, não sou batizada, mas estou na igreja há sete anos. Antes eu fui muito católica, fiz tudo que o católico faz, participava da igreja lá em Ipanema, participava do coral, me crismei. Acho que foi a tristeza que teve a ver com a minha conversão. Quando me separei do meu segundo marido eu fiquei em depressão, então minhas duas filhas me chamaram para ir na igreja que era perto da minha casa, uma Assembleia de Deus, eu fui e acabei ficando. Eu entrei lá, depois sai para uma outra igreja e agora estou em outra, uma Igreja Batista. Você entra na igreja, vem a palavra falando de Deus e da Bíblia e tudo vai te acalmando. O evangélico não liga para imagem, é mais falando direitamente com Deus e a Bíblia. Gostei disso, coloca coisas boas nos nossos corações.

Agora eu tenho três filhas, a mais velha é do meu primeiro marido e as duas novas são do meu segundo. Os dois me traíram e não aceitei e mandei eles irem embora. As pessoas da minha igreja falaram: “você tem que aceitar, pois desde o tempo dos reis e das rainhas existe a traição”, mas mesmo que sempre existiu isso eu não sou obrigada a aceitar. Eu não tenho que fazer o que minhas irmãs fizeram e o que minha mãe passou, eu sou um ser humano diferente. Eu sou diferente, sei lá. Eu gostaria de entender porque eu sou assim, mas acho que é porque já cansei de ver tantas pessoas sofrerem. É igual a bebida, não gosto de bebida porque meu pai bebia e fazia essas coisas com minha mãe, então eu vi o sofrimento dela, eu tinha sete anos mas eu lembro, eu lembro da maldade que ele fazia, então eu não aceito isso, sou contra a violência. Até hoje eu crio minhas filhas e não sou de bater, eu sou de conversar, colocava de castigo, tiro o celular. É assim, cada um tem suas diferencias, nem todo mundo é igual.

No futuro, daqui a dez anos, eu espero coisas melhores: paz, um futuro melhor para nossas crianças, um governo melhor. É difícil, os que entram na política já encontram a podridão e acabam piorando mais, só botando o dinheiro no bolso deles, deixando mais pobreza, mais violência. Aqui se existisse mesmo uma boa polícia, um bom comandante, uma boa presidenta, acho que seria um país muito legal. Se tivessem mais pessoas honestas o mundo não seria assim como hoje. É por isso que eu ensino para as minhas filhas não mexerem na bolsa dos outros, para elas não mexerem na minha bolsa para pegar dinheiro. Quando elas querem dinheiro elas pedem para mim, se eu tenho eu dou, se não eu não posso. Se você não ensinar assim, vão virar isso que está na rua, uma parte da violência, uma parte da bagunça. Tento falar essas coisas pelo menos para mudar um pouco no mundo dos jovens, para ver se melhorar um pouco. Está difícil, ninguém mais se entende, ninguém mais pode olhar para o rostro da outra pessoa. O que a gente está precisando agora é de amor. O povo está precisando de amor.

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