Cristina

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Eu vim para a Maré com sete anos. Eu ainda era pequena, não lembro todos os detalhes, mas sei que o governo estava tirando casas e a gente tinha que vir para cá. Eu sou do Rio de Janeiro, nasci na Rocinha e a mudança não fazia muita diferença para mim, todo lugar tem suas coisas positivas e negativas e é assim no mundo. Estudei na escola perto daqui, terminei o primeiro grau mas depois eu larguei, minha escola mesmo, não foi pra trabalhar ou outra coisa, eu era jovem e maluca e não esquentava muito.

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Quando comecei a trabalhar era em uma casa de família, tinha aproximadamente uns 19 anos. Depois eu trabalhei de bico na gráfica, trabalhei em um consultório médico como recepcionista e trabalhei na minha casa tomando conta de crianças. Agora eu estou trabalhando de carteira assinada tomando conta de uma senhora no Leblon. Já trabalhei de recepcionista com o filho dela e como eles precisavam de uma pessoa para ficar com ela, eles queriam uma pessoa de confiança, pois para trabalhar com um senhor de idade tem que ter paciência, tem que ser uma pessoa de confiança.

Trabalho de Segunda a Sexta, das 8h às 16h. Faço tudo para ela, quando chega às 14h não tem mais nada para fazer mas eu fico com ela até às 16h porque ela não gosta de ficar sozinha, ela mora com o esposo dela, só que ele trabalha. Sabe que horas eu saio de lá? Às 16h. E sabe que horas eu chego aqui? Às 19h. De manhã eu tenho que acordar às 4h30 porque tenho que tomar banho e me ajeitar para sair às 5h. São três horas no trânsito e são três horas que eu vou para o Norte em um avião. É isso que estressa a gente, não é o trabalho, é esse problema do trânsito.

Além disso eu faço bolos em casa para festas, faço tortas também: de coco, morango, abacaxi. Apesar da crise no Brasil, as pessoas aqui ainda pagam as festas, tem eu aqui, tem mais duas meninas nessa rua que fazem bolos e, graças a Deus, acho que tem o suficiente para todo mundo. Não temos problema com competição, a gente é amiga, a gente bate na porta da outra, cada uma tem seu jeito de fazer as coisas, uma delas é mais profissional, pois ela trabalha com bolo mesmo. Eu não, eu trabalho fora e faço meus bolos em casa, se aparece uma torta ou um bolo para fazer em um dia de semana eu chego do trabalho e vou fazendo.

Aprendi a fazer bolos quando comecei a fazer para minha filha quando ela era pequena, como eu não tinha condições de pagar para ninguém fazer eu mesmo fazia e fui fazendo, fazendo bolo de chocolate, bolo de brigadeiro, e daí comecei a decorar. Há anos que eu faço bolo para outras pessoas, eu não divulguei, eu fazia para uma pessoa e essa pessoa gostava e outra me procurava. Trabalho para mim, independentemente, sem compromisso nenhum, não trabalho para pagar minhas contas. Trabalhar lá na casa da senhora é bom porque lá tem todas as minhas garantias, todos meus direitos, aqui eu faço por amor, nem por dinheiro, é uma terapia para mim, me faz bem.

Hoje em dia eu não estou pegando muito trabalho porque estou com problema de coluna, mas quando tem problema minha filha me ajuda mas ela não gosta muito, ela tem 28 anos. Meu marido acabou de comprar um ponto perto do baile para vender bebidas e vou fazer bolo para ele vender lá, ele ficou desempregado e com o dinheiro que recebeu ele comprou esse ponto para trabalhar, para não ficar parado, ele é do nordeste e as pessoas do nordeste são muito trabalhadoras. Eu não gosto deste trabalho dele, mas ele está trabalhando, está tentando e espero que dê certo. Mas eu não vou ficar lá, só vou fazer o bolo e deixar lá com ele.

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Eu tive minha filha com meu primeiro esposo quando tinha 24 anos, mas me separei dele com 28, depois me casei com meu marido atual, foi ele quem criou ela. O pai dela é bom pai, foi eu e ele que não demos certo. Tem pessoas que complicam as coisas, mas querendo ou não, ele é pai e é o direito dela, então ele vem para visitar ela, conversar comigo. Desde que separei eu nunca pedi pensão dele, nunca pedi nada, não posso cobrar dele, pois eu nunca pedi nada. Não sei se eu era orgulhosa ou o que é que era, mas sou muito independente, eu sempre trabalhei. Eu sou trabalhadora, graças a Deus, me considero guerreira, eu gosto do que eu faço, não me arrependo de nada, e hoje em dia trabalho para mim e trabalho para outro.

Para o futuro tem que ter sonhos, e meu sonho é juntar o dinheiro que tenho e comprar uma loja para fazer bolos e trabalhar fora mais não. Até pode ser nesse ponto que meu marido abriu, pois se der tudo certo lá eu vou para fazer meus bolos. Acho que algumas coisas eu já realizei, eu queria me casar e me casei e agora eu faço o que gosto, trabalho fazendo bolo, adoro trabalhar com isso.

E eu espero que a minha família realize seus desejos. A minha filha tem seus objetivos, está fazendo o pré-vestibular para entrar em uma faculdade e quer abrir o salão dela, e eu acho que ela vai conseguir sim, já esta fazendo. Aqui nessa comunidade eu criei minha filha, uma menina que, graças a Deus, não é da rua, é muito educada, e acho que com toda criação o importante é a educação que a gente dá em casa. Eu nunca tive pai, nem no registro, mas eu nunca tive problema com isso, eu tive uma mãe maravilhosa que continua me ajudando muito, tive um padastro excelente que cuidou muito bem da gente, tive um irmão mais velho que foi um pai também para mim e me deu muito incentivo.

Mesmo sem estudar, se você tiver uma opinião boa você faz as coisas certas na sua vida, cada um faz sua escolha. Eu vejo pessoas que falam: “ah, mas eu não consegui” – não, você não conseguiu porque você não tentou. Eu estou com a idade que eu estou, 52 anos, e se eu quiser eu vou começar a estudar de novo, vou fazer um curso particular, fazer o Enem, fazer uma faculdade. E com certeza eu creio que daqui a uns anos eu vou ter um espaço só para fazer bolo. Eu pretendo ter uma loja, uma coisa minha no futuro, e não vou desistir.

Eu também espero um pais melhor, um pais menos corrupto e mais honesto, porque o nosso pais está vivendo um momento muito difícil. Eu falo para outras pessoas que nem sei em quem votar, porque está difícil achar uma pessoa de carácter para votar hoje, quem a gente menos espera decepciona a gente na política. Mas precisamos ter um poquinho de esperança que possa melhorar um pouco. Temos que acreditar, nê?

 

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