Antônia

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Eu vi um fantasma quando era pequena. A gente morava no interior do Rio Grande do Norte, lá no Nordeste, e minha família trabalhava na terra do meu patrão. A fazenda era muito grande e uma noite eu fui na casa da minha irmã. Era só lavoura ao redor, milho, feijão, arroz e cercado do gado. Eu fui passar por debaixo do arame e tinha um tanque, aquele tanque que foi formado por Deus quando ele fez o mundo, que quando chovia enchia d’água naquelas pedras, e aí vinha aquela luz me acompanhando. Eu meti o pé, meti o pé, e aquela luz sempre estava me acompanhando, me acompanhando, e eu pensei no meu pensamento: esse é um fantasma. Lá em casa todo mundo estava deitado, meu irmão trabalhava muito, tinha muito roçado, e eu fiz carreira, fiz carreira, e cheguei em casa com a boca aberta. Aí saíram meu irmão e minha mãe para ver, mas não tinha nada, só podia ver eu.

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Ave Maria, eu tinha que sofrer muito trabalhando nessa terra. Eu tinha três anos quando meu pai morreu, minha mãe ficou com seis filhas mulher e dois filhos homem. Só queriam minha mãe nas casas para lavar a roupa da família, o restante a gente era para trabalhar na roça, plantando, colhendo, limpando o mato. Era muito bom morar lá no norte, só que tinha muito trabalho. Meu marido trabalhava numa terra perto da gente; ele era um garoto, tinha 12 anos, quando eu conheci ele. Eu vi ele na roça dele trabalhando, era muito trabalhador, e aí nós ficamos olhando um para o outro. Naquela época eu estudava, e um dia eu vim do colégio e aí meu sogro viu ele me olhando e falou: “aquela garota vai ser a minha nora”. Não tinha esse negócio de beijar na boca, a gente pegava na mão somente. Passamos três anos namorando e depois dos três anos nos casamos.

Eu nem sei quantos anos eu tinha quando eu vim para aqui, eu tinha 20 anos quando casei, no dia 20 de dezembro de 1953, e eu vim para aqui em 1966, você faz a conta. Aqui por baixo era tudo água, tinha os barcos que passavam da varanda; aqui na Nova Holanda tudo era água, água, água. Tinha que caminhar uns 10 minutos para pegar água para beber, a minha filha mais nova e um colega dela pegavam e encargavam na cabeça. Tinha um PM que trabalhava aqui dentro que cobrava um pedacinho de dinheiro para puxar luz.

Meu marido comprou essa terra aqui. Quando ele veio para aqui não sabia nada, mas ele aprendeu. Ele trabalhava de pedreiro, fazendo obra, construção, quando alguém batia com carro ou quebrava alguma coisa ele sempre ia consertar. Aí ele trabalhava de noite, chegava aqui de manhã, ia dormir e quando acordava ia mexer naquela terra. Foi assim que ele fez essa casa. Aqui cada um aterrou o seu pedaço, cada morador aqui tinha de sobrar aquele dinheiro das compras para comprar um caminhão de aterro. Enfim aterraram essas ruas aqui porque estavam construindo colégios, tinham que tirar as pessoas que moravam ali na Baia de Guanabara, elas pegaram casinhas na Vila do João.

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Tem uma carga de 30 anos que eu trabalhei como diarista, fazendo faxina, passando roupa. Saia daqui as 5 horas da manhã, pegava dois ônibus e chegava lá as 6:30. Na terça feira eu trabalhava em Copacabana, na quarta feira trabalhava em Laranjeiras, na quinta feira trabalhava na Ilha do Governador; era assim, todo dia numa casa. Eu não trabalhava de carteira assinada porque o diarista não assina carteira, assinam para essas pessoas que trabalham mais de dois dias numa casa. Gostei do trabalho, eu trabalhava por minha conta, chegava lá e na hora que eu terminasse eu podia ir embora para casa, nunca reclamaram com a faxina que eu fazia. A mulher da casa na Ilha do Governador era muito boa para mim, me dava de tudo: ela me dava roupa usada, me dava tudo que eu queria, usava uma roupa quatro ou cinco vezes e me dava. Até hoje eu ligo para ela e ela junta uma roupa para mim.

Graças a deus fui muito boa recebida nesse Rio de Janeiro, o pior que eu tive foi essa condição que eu tenho agora. Faz quatro anos tive um ATC. Naquele dia sai de casa, trabalhei até meio-dia, e aí fui pegar o ônibus na rua das Laranjeiras. Quando atravessei a pista para chegar no ônibus que estava parado, dei uma carreira, e quando cheguei lá minha pressão aumentou, que eu sofro de pressão alta. O ônibus estava com o ar condicionado ligado e quando eu entrei recebi aquela pancada, e buf! Dentro do ônibus cai. A trocadora, ela ligou os bombeiros e eles foram lá me pegar, me levaram pro hospital. Os médicos falaram: “A senhora está desse jeito porque quis, porque não tomou remédio”. Eu tomei mas não adiantava. Faz quatro anos que eu estou desse jeito. Eles acham que eu estou assim porque eu quero, que meu braço e desse jeito porque eu quero, que eu não me levanto porque não quero. Quando eu vou vestir eu fico pedindo a Deus para que passe essa dor, eu peço muito a Jesus que ele me escute, que escute o meu sofrimento.

Com a pensão que meu marido deixou para mim não preciso trabalhar, graças a Deus, é uma pensão muito boa. Meu filho cuida de mim, é ele quem paga telefone, paga luz e o resto. Minha filha mais nova mora lá na Baixada Fluminese, a mais velha mora em Campina Grande. Ela cuidou do pai até que ele morreu, depois ela foi embora, nunca mais veio aqui. A outra nem vem pra aca, nem liga, as vezes eu mando mensagem para ela: “você sabe o que está fazendo comigo”?

Faz um ano que meu marido morreu. Os médicos daqui são tão burros, não descobriram a doença dele, um câncer, fizeram o exame e não descobriram. Ele secou, secou, ficou magrinho, magrinho. Para mim foi ontem que ele morreu. Eu não acredito que ele morreu tanto que eu sento às vezes esperando por ele chegar. Passei muito tempo esperando por ele, um ano todinho sentado nesse sofá, esperando para ele chegar. Tenho a cama todinha para ele.

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