Adriana

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Eu tinha 18 anos quando vim para o Rio, na época trabalhava na prefeitura (lá no Nordeste, a maioria dos empregos são da prefeitura) e um tio meu era gerente numa loja aqui. Nessa loja estava dando vaga para vendedora, então ele foi lá e me disse que, o que ganhava lá em mês era o que eu iria ganhar aqui em uma semana. Eu fui morar na casa desse tio, morei lá quatro anos e me casei. Eu vim da Paraíba para poder tentar a vida aqui e graças a Deus me casei; tenho um filho e meu marido, e a gente vive uma vida digna.

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Quando eu cheguei aqui eu fiquei chocada. A pesar de que a violência está em todo lugar, numa cidade grande acaba sendo tudo maior. Numa cidade pequena você não vê crianças na rua dessa forma, lá é totalmente diferente. Mas foi a opção de vida: não dá também para viver no Nordeste, dessa tal forma de viver esperando, viver de salário, viver sem estrutura nenhuma. Se você não tem conhecimento lá tudo é mais difícil, porque no Nordeste a política lidera tudo. Se o teu partido perdeu, os funcionários são mandados embora, aqui você vai procurar algum trabalho e ninguém quer saber de que partido você é, aqui pelo menos a gente tem uma alimentação melhor, uma condição de vida melhor.

Sempre morei aqui no Parque União, eu gosto muito, se for para sair daqui, tem que ser para um lugar melhor, um bairro melhor. Se for para sair daqui para morar em outros lugares aqui nos arredores, eu não saio nunca, de jeito nenhum, em relação a comunidade, eu acho que aqui é uma das melhores para se morar, para se conviver. Eu trouxe a maioria dos meus irmãos para cá, só ficou uma no Nordeste. Graças a Deus meu outro irmão conseguiu um bom emprego, trabalhou muito e foi morar fora num bairro melhor. Tenho duas irmãs que casaram e foram embora daqui uma que mora em Niterói e outra mora em Rio das Pedras, em Jacarepaguá.

Eu trabalhava em uma loja e um dia falei: “só esse salário que eu estou ganhando não vai dar”. Vi no Globo Repórter uma reportagem sobre pequenos negócios que as pessoas começaram fazendo salgadinho, fazendo bombom, essas coisas. Eu falei: “essa ideia é boa, eu vou fazer isso também”. Comecei a ler revistas, comecei a fazer para ver se estava certo. Fui levando para o trabalho, para os colegas, e eles falaram: “ah, faz tanto para mim”. E aí eu fiquei, eu já estou com dez anos, sempre estou fazendo coxinha, bolinha de queijo, salgadinho, bombom, pirulito, maçã do amor, essas coisas de festa de criança. Eu faço trufas muito bem mesmo, então graças a Deus eu sempre tenho encomendas de trufas. Agora eu resolvi também alugar mesas, então estou comprando as coisas aos poucos. É isso que eu quero para minha vida, ser dona de uma loja de festa.

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As pessoas aqui se importam muito com a festa: bodas, aniversários de quinze anos, aqui tem tudo isso. Os pais elaboram o tema conforme ao que a criança quer e a festa acontece assim. Por exemplo, para uma festa do Mickey, as pessoas vêm e encomendam um pirulito, uma carinha do Mickey, um cupcake com desenho do Mickey em cima, a festa toda decorada com os bonecos do Mickey, o bolo também. Vem a mesa decorada com muito pirulito, muitos doces, vem o pula-pula, vem a piscina de bolas, as crianças dançam, tudo que você tem numa festa normal para crianças. As pessoas aqui dão muita importância ao poder comemorar o aniversário do seu filho, o aniversário de casamento. O tema mais popular para criança é Minnie, Mickey, Galinha Pintadinha, palhaço, príncipe, e agora a Frozen porque está muito no ar.  

A festa de quinze anos é mais da realeza. Colocam as coroas, as cores da festa é tudo assim dourado e prata, e tem piscina com clube fechado, uma pista de dança. É muito dinheiro para fazer tudo isso, uns 45 ou 50 mil reais, as pessoas sempre estão poupando dinheiro, ganhando dinheiro, para poder dar ao seu filho e sua filha o que eles não tiveram. Agora mesmo eu fiz uma festa para uma mãe, só ela, separada do pai, era o aniversário de 15 anos da filha, e ela fez a festa em torno de um mês, sem condição financeira nenhuma. Foi uma festa simples, mas tinha de tudo: o palco, as mesas bonitas, os convidados, as lembrancinhas. Sempre se dá um jeito; cada parente ajudou da forma que pôde, e daí aconteceu a festa, foi muito boa a festa, muito boa mesmo.

Hoje em dia eu trabalho num hospital na Tijuca. Lá eu lido com comida: sirvo comida para paciente, faço uma vitamina, um suco, um chá. Tenho que sair de casa às quatro horas da manhã para estar no trabalho às seis horas, quando começo a arrumar o café da manhã dos pacientes. São doze horas de trabalho, das 6h às 18h, e quando eu chego aqui em casa estou muito cansada. É plantão, dia sim, dia não, 12h x 24h. Os outros dias eu trabalho em casa. Cansativo é, só que são coisas que eu gosto de fazer, então as coisas que eu gosto de fazer acabam sendo prazerosas. Eu gosto muito do que eu faço, só que lá eu sou funcionaria e aqui sou gerente. Aqui eu faço o meu horário. No futuro gostaria de sair desse emprego no hospital, só que não pode ser agora porque lá é o meu certo: o salário, o plano de saúde pró meu filho. Todo mês o dinheiro está lá e por enquanto, como ainda é pequeno o negócio de festas, eu não tenho como me garantir só nesse. O futuro é expandir o trabalho, conseguir uma loja para poder trabalhar no meu ramo mesmo, de festa. E eu espero que no ano que vem eu já possa fazer isso, que possa dizer assim: “vou montar a minha loja”.

E eu vou conseguir. Tudo vai dar certo. Todo que você quer na sua vida, se você tem um propósito em fazer, você consegue. Basta só você querer. Vêm as tentativas: aquela coisa deu errado naquele dia, mas você vai e tenta de novo, porque se não tiver perseverança a casa cai. Se eu faço um doce e aquela pessoa diz que aquele doce não estava bom, vou lá naquela pessoa e pergunto: “o que foi que você achou de ruim? O que é que podia melhorar?”. Aí eu vou tentar melhorar, vou ver como é que faço, se realmente vai dar certo. Você não pode ficar só naquele mundo aonde não existe opiniões de ninguém. Eu gosto muito de trocas: “me ensina a fazer isso, e eu te ensino a fazer aquilo”. O meu é o seu também. É com a experiência com outras pessoas que você vai aprendendo.

Se você for pensar em todos os obstáculos que vêm na sua vida, você nunca consegue nada. Você acaba sendo aquela pessoa que sempre fica na metade do caminho.  Eu não me vejo assim. Não me vejo de jeito nenhum, me vejo sempre prosseguindo para frente. Eu vim do Nordeste, e agora graças a Deus tenho minha casa, tenho minha família, tenho minha vida, tenho meu emprego, tenho minha estrutura de festa. Não estou pensando em olhar para atrás.

 

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